Se assim que você ouve a palavra “blockchain”, a primeira coisa que vem à sua mente é o bitcoin, saiba que os usos dessa tecnologia vão muito além das criptomoedas. É o que defendeu nesta quarta-feira (22/11) o economista Antonio Hoffert, especialista no assunto e colunista do Criptonomia.org, durante o Blockchain Summit, em São Paulo.

“Para a maioria das pessoas, bitcoin e blockchain são a mesma coisa. Mas faço uma analogia. A escrita foi primeiro usada pelos sumérios para contabilizar dinheiro em tábuas de barro”, diz Hoffert. “A primeira aplicação do blockchain é a criptomoeda, mas ele não se retringe a isso — como a escrita não se limitou a ser usada como um livro de registros de débitos.”

O Fórum Econômico Mundial vê o blockchain como uma tecnologia que vai moldar o futuro. Isso se deve, segundo Hoffert, a uma característica específica dessa tecnologia. “A descentralização é a característica que exalta o blockchain.” Esse traço é o que torna a tecnologia tão robusta, segundo ele — não há uma instituição central por trás dela.

No sistema financeiro, o blockchain levará à simplificação operacional e à minimização de fraudes, segundo ele. Mas há várias aplicações não financeiras também. O principal exemplo é catalogar e rastrear objetos de valor. “O primeiro e mais imediato uso é a \’tokenização\’ de bens não perecíveis, como diamantes, possibilitando a redução de fraude, já que aquele diamante teria um registro único no blockchain”, diz Hoffert.

Pesquisas

Além disso, grandes universidades estão colocando diplomas no blockchain para certificar a autenticidade do documento e impedir falsificações. Já no setor de saúde, a tecnologia pode ser usada para distribuir com segurança diagnósticos médicos. Até contratos cotidianos, fechados todos os dias em imobiliárias, terão um lugar no blockchain, afirma Hoffert.

Segundo levantamento apresentado por ele e feito pelo Criptonomia.org, a maioria das empresas que prestam serviços com blockchain está na América do Norte. Europa e Ásia aparecem na sequência. A representação da América do Sul ainda é tímida. Os Estados Unidos estão em primeiro lugar no ranking, enquanto o Brasil está em 11°. No entanto, muitas das companhias que usam o blockchain, ele destaca, não revelam sua nacionalidade.
Entre as empresas que já utilizam blockchain, estão bancos, corretoras e seguradoras, além companhias de logística, saúde, análise de dados, desenvolvimento de aplicações, economia colaborativa e consultorias. “Essas companhias são altamente dinâmicas. Como o mercado é incipiente, há uma alta taxa de mortalidade.”

Os próximos dois anos serão decisivos para o sucesso (ou não) do blockchain. Na visão dele, entretanto, tudo indica que a tecnologia e as criptomoedas serão, sim, adotadas em massa — só que não tão rápido. “As criptomoedas existem há nove anos e não foram adotadas em massa”, afirma. “Temos uma visão romântica de que o blockchain vai mudar o mundo e o indivíduo vai ter sua privacidade, mas não é bem assim. Na minha opinião, a tecnologia vai precisar de mais tempo para atingir a massa.” Segundo ele, é a adoção de mais pessoas que gera o incentivo para nova adesões — como aconteceu com tecnologias como o telefone.